15 de Julho de 2009

ON THE HIGH WIRE

Há no fio do arame que se atravessa quando só nos resta atravessar, uma tranquilidade de embalo, marinha, desenhada em curva leve, um lugar alto assim, tão estreito, onde corpo se deita descansado de tudo, a meio caminho, uma rede, aquela fina linha de aço tenso, uma rede, afinal, a tensão flectida do aço é uma rede, muito alto como se fora muito baixo, a suspensão sobre o vazio, a mais macia cama. O balanço lento da perna no ritmo do que só no ouvido canta. Embalada a felicidade no vazio, assim tão alto, no meio do céu nocturno de estrelas, a meio caminho, a felicidade no ponto exacto retirado ao meio equidistante de tudo. Dormir a macieza do aço, sabendo-a, a ela, medula da vida.

A ALEGRIA DOS NÚMEROS

1 Teria gostado de juntar a este, o Lobo Antunes do Tiago. Mas não é linkável. Está lá, em voz baixa, entre parêntesis.
2 Merci pelo cachecol.
3 Lobo Antunes, porém outro, e em voz alta.

14 de Julho de 2009

A TODOS OS FILHOS DA PUTA QUE ABANDONAM OS CÃES QUANDO VÃO DE FÉRIAS...*

...espero que, um dia, se vejam nus, sem dinheiro, cheios de sede e de fome, sem conhecer a língua, num país longe, muito longe, onde sejam tratados, pelas raras pessoas que vos olhem, com toda a hostilidade! Caso tenham dúvidas, metem-me nojo!



* e quando termina a época de caça e quando...

13 de Julho de 2009

18 DOMESTICIDADES

Gostava, saberá Deus porquê..., de ser uma fada do lar. Já sei!, não me fica bem dizer uma coisa destas à beira do século MLXXIV - são desnecessários e-mails sobre o assunto, tá? -, mas gostava de ser uma fada do lar e não sou: sou uma bruxa da roupa por passar! Ora, isto atormenta-me porque eu gosto de uma linda ordem pelos guarda fatos, gavetas, armários em geral, louceiros e dispensas em particular. Só me rendo à desordem dos livros, cds, revistas e assins. Porque isto é pouco, não suporto roupa sequer mal passada, quanto mais por passar! Decidi gastar a parte mais matinal da manhã no curso para fadas. Chumbei. Para não passar a roupa a ferro, andei a lavar tapetes, edredons, a separar aquilo que já não uso e jamais voltarei a usar, fosse uma blusa, um gel de banho ou uma travessa. Claro que, durante o tempo gasto, me entretive em pensamentos superiores, direi mesmo, elevados. Sim, gostava de ter uma casa com jardim, ginásio e piscina interior aquecida e, fora, uma ao Deus dará. No entanto, concluí, preferia ter uma secretária, levemente tirana, que me tratasse das edps, tmns, coisas, fizesse menus dietético-salutares, já chega de cerejas! e nem pensar em crepes suzette!, madame - tirania, só com educação em francês - um motorista que também me carregasse as compras, uma instrutora de yoga para gente que tem uma porcaria de cervical e já não pode fazer posições invertidas, outra de tai chi para principiantes, uma massagista... Tudo serviço domiciliário com horário pequenino. Resumido e espremido, se eu fosse empresária, abria uma empresa disto: uma secretária 1 x por semana, uma instrutora diariamente, uma massagista 3 x semana, serviço de limpeza e engomadoria 2 x semana, enfim, como os canais da TV Cabo... cada um compunha o pacote a seu gosto e pagava-se uma mensalidade! Boa? Quem é que tem lindas, lindas ideias enquanto vira as asas das chávenas todas para o lado direito?

VI O FILME. GOSTEI!

11 de Julho de 2009

10 OS HOMENS SÃO UM MISTÉRIO...

...usam boné, mas não usam protector solar! Ou trata-se de uma manipulação profunda para que lhes digamos: quer tau-tau, bebé?

10 de Julho de 2009

27 THE LOST ART OF CONVERSATION - as regras que Murasaki Shikibu não escreveu para as fotografias de Daido Moriyama

A conversa nunca é a pesagem das palavras - coisa pluma em suspenso, palavra, entre o olhar de um e o olhar de outro, em suspenso a palavra. O peso da adequação delas, vê-se na elasticidade do passo das acções que desencadeiam no interlocutor uma vez caídas e repousadas nele. Ou na rigidez.

9 de Julho de 2009

ABAIXO AS CEREJAS E QUEM AS APOIAR!

Confesso que não desgosto de cozinhar. Até há quem o faça piorzinho do que eu, dizem. Isto significa que me alimento bem? Sim, mas não! Significa tenho andado a sandes de salmão fumado, cachorros, ovos estrelados e, de vez em quando, qual mestre cuca, ó céus de talento, frito ou grelho um danado dum bife e afogo-o em molho. De pimenta, de café, de mostarda, de queijo, enfim, de qualquer coisa que faça a balança pensar que vai enfartar por esmagamento e me faça pensar que enfarto de susto dos infelizes números que a ordinária me grita. Fora isto, bitoques e japonês, japonês, japonês, um geladinho por outro, chocolates, um milésimo dos que me apetecem - mas no outro dia quando fui comprar a Playboy desforrei-me e trouxe por junto uns petits bombons -, e frutinha variada, iogurtes e leite Vigor meio gordo, fresco, para aliviar a culpa dos afogados, ficar esganada de fome e começar tudo do princípio. Porquê, se eu sou amiga do meu belo peixinho cozido- o conceito de amizade aqui é um tanto fluído... como-o!-, com lindos broculinis, cenouras bebés ou outras e a macia batata? Não sei. Mas sei que graças a este maluquedo alimentar, tenho comido quase diariamente quantidades absurdas das melhores cerejas da minha vida, pretas, de polpa espessa, doces quase demais, com suco. Afinal, descubro-as hoje, depois de um cerejal bem comido, atafulhadas de calorias. Amanhã, bife com molho que é para fazer dieta! E, vai não vai, ainda como um crepe suzette de prémio de bom comportamento nutricional. Olé!

ps: estes crepes, se dúvidas houvesse, seriam a prova da inspiração Divina, logo, da existência de Deus, acho.

8 de Julho de 2009

93 QUERIDO DIÁRIO

Logo desde os primeiros dias de vida, logo muito na infância, sempre na juventude, no berço embalado com medo, nos bancos da escola, no não se dar a mão de mãos dadas, ensinam-nos, mesmo ainda hoje ensinam o mesmo e da mesma forma: a cantar, de Platão, a alegoria com ritmo de tabuada. Tão sabedores de 2x2 mundo de caverna, 2x3 limite do conhecido até 2x10, que esquecemos, logo ao início, que duas vezes nada, nada é. Sombra é sombra, não corpo cruzado da luz que o projecta. E deste modo tão fácil, venenoso fácil, imposto pela condição de crescer, esquecemos o que sabíamos ao nascer. Cantamos a tabuada toda em coro de moribundos de tanto, tão grande, o medo de cegar da luz do sol e morrer a pedir água. Arrumo, assim, com esta simplicidade, porém sem desamar a doçura do erro, aquilo que em mim não foi completo - e eu incompleta naquilo. Esta é a verdade da sombra, mesmo doce é amarga ao fim - será por ela que dizemos, uma sombra do que poderia ter sido? Mas a educação do coração, do lado esquerdo e do direito, do amor bom, do amor mau, de um, ou de outro, sombra no entendimento dele, incompleta dádiva, faz-se, lamentavelmente, por defeito, felizmente por defeito, para que a surrealidade do corpo abra ao centro do peito um buraco onde se veja o mundo todo em falta, que doa muito sem atrapalhar a alegria das horas, que doa tudo para se saber sempre dela falta, e ter os olhos abertos quando ele mundo está à nossa frente e a carne se refaz até que fechada com o mundo ao centro. É o jugo da consciência da falta que delineia a consciência de ser, origem do verbo, substância depois. Quando se sente amor, pensa-se, penso que amo. E, se se o disser, diz-se, amo-te, convocando naquele tempo, dois, não um só, não só o que diz, mas também o que é o Amor do dizente. É com ele Amor que nos sabemos, rememorando o perdido que o tempo amadureceu até ao mel, perguntando-(lhe)-mo-nos o olhar: quem sou eu nesse antes estranho de mim, esse eu outro agora, luz, não sombra, luz eu com ele, que me refaz a carne? A estrada sob os nossos pés onde julgamos caminhar, é só o coração ao centro do jardim muito quieto da alma.

6 de Julho de 2009

DEEP MIDNIGHT BLUE

Azul meia noite profundo, o jardim embrulhado em azul, assim azul de vestir casaco com mangas compridas, casaco de neblina ténue e fina que não se pode agarrar, mas que mãos fecham à frente do peito para aconchegar o frio com o frio: indistinta a pele do corpo, do corpo do céu. Há o tempo do sorriso na ponta do indicador encantado com as borboletas grandes, finas asas como veludo de seda, porque um lustro de preto também brilha de branca luz cristalina. E tanto! contraste com azul! Em círculos no movimento das asas, azul de sóis negros de fogo frio pelo jardim, das asas das tantas borboletas em redor do corpo vestido de céu... no tempo da felicidade as borboletas grandes rodeiam-nos sempre, das asas desprendem-se flutuantes bolas de cristal negro onde o coração da alma em transformação, negro, se refracte em azul meia noite profundo.

5 de Julho de 2009

92 QUERIDO DIÁRIO

Amar é dar forma à morte: o eu expulso de tudo o que conhece, a ponta da lâmina, metal de puro veneno, a qualquer instante a enterrar-se lenta no que da carne é éter e mais que a pressão, o insuportável peso sobre as costelas que sabem que vão partir-se em direcção aguçada aos pulmões, o ar, tão pouco... sob os pés a fronteira, atrás tudo, à frente nada se sabe, e para dar o último passo, o que fecha as portas do paraíso, o primeiro que abre as portas do mundo, sobre a fronteira rarefeita onde a luz se adivinha pela sombra e a água pela humidade, só a nudez defendida pela maçã do conhecimento ou, o que é a mesma coisa, o corpo dividido em dois, empurrado para os dias pela vontade de Deus. Nasce-se sempre entre dor e gritos, ninguém pode alargar o estreito canal de passar e nascer, e o primeiro sopro engolido, queima os estreitos canais de respirar, ninguém pode evitar o fogo até à explosão da abertura dos olhos que nada percebem daquilo que vêm e voltam a fechar-se no primeiro profundo cansaço que é a educação para a entrega e pavor de desamparo. Nas mãos dos outros desde a primeira hora, o resto é fuga. Por isso não digo amo-te. Até que o amor me obrigue, não digo, até que os lábios se abram sozinhos, não digo. A verdade é anterior às palavras, o coração é anterior ao corpo de amor, o desejo é anterior à arquitectura do futuro. Chegamos antes nós para nos fazermos da matéria que somos e religarmos o que é memória sem tempo, olhar nos olhos, à voracidade contra relógio, o único lugar onde as mãos podem dar-se, dar as mãos, e chorar de saber tudo de nascer, amar, morrer. Até dizer, não digo. O verbo acorda o que dorme no coração do verbo. Dedo indicador sobre os lábios, shh...

4 de Julho de 2009

30 NÃO ME IRRITE!

Eu durmo sempre pouco e sempre mal. Esta é a regra. Excepcionalmente durmo muito e durmo bem: sete horas de seguida. Hoje. Quando isso acontece, acordo com a cabeça fresquinha - deve-se desligar durante parte do sono. Gosto muito: penso mais bem, ou mais mal, ou lá o que é que me agrada neste pensar sem cansaço. Além do que, também me altera o humor. Quando durmo bem, fico ainda mais assim e isso torna tudo muito divertido. E tanta converseta para quê? Para contar que ontem - há quem partilhe, eu conto - li na Visão um artigo sobre o pensamento-acção de uma grande querida, sobrevivente mental do flower power, com quem teria muito gosto em conversar. Porquê? Porque parece acreditar genuinamente naquilo que diz, e aquilo que diz é tão pateta que se deu ao trabalho de criar uma teoria para o sustentar e para se justificar, ainda que o mundo/ mentalidade vigente não esteja preparado para tal, diz a visionária. Ora, eu respeito gente assim porque também sou pateta, mas doutro género. E de bónus, sempre avanço com uma informação que confirma a superior clarividência daquela grande querida: quase jurava que não estou preparada para tal requinte e sapiência.
O poliamor é uma forma de relação amorosa com vários parceiros em simultâneo, com conhecimento e aceitação por parte de todos os poliamorosos envolvidos, com hierarquia vertical e com regras definidas e negociadas por cada um dos intervenientes nela. Defendem que todo o ser humano é poliamoroso, se não em simultâneo, sequencialmente poliamoroso. Quando sequencialmente, estabelecendo relações paralelas com ónus de traição e sofrimento. Se não as estabelece, reprimindo e deformando a sua natureza animal. (De ser tão bicho até já me apetece rugir!) Mais defendem. Este é o modo amoroso natural-animal do ser humano - sobre esta última naturalidade-animalidade só duas coisinhas de nada: também nascemos nuzinhos e não é por isso que andamos para aí descascados, também nascemos iletrados e nem por isso nos mata as quatro patas aprender o abc. Adiante na selva. Como somos animais, estabelecemos naturalmente - isto são as palavras chave da coisa - a tal da hierarquia relacional, que é aquilo do alfa e do beta, em versão homem-mulher, e por aí vai, até ao triste do ómega que deve ter uma vida cheia de alegrias. Mas como somos animais naturais, parece que fazer dos consortes - ou dos com azarucho! - deltas e ómegas, dói menos do que trair ou escolher e preterir, ou mesmo fazer um dó li tá. `Tá tudo maluco?! Ainda não se deram conta que a Era de Aquário acabou e que o lsd faz mal à cabeça?! Esta malta do amor livre dividiu-se conveniente em dois grupos transitáveis: uns tomaram conta do poder institucional, desmoralizaram a economia e a política, educaram para, ser é ter, e ofereceram-nos o sub prime. Thank you. Os outros galgaram as universidades e destilaram que tudo é cultura, tudo é dizer, tudo é expressão estética de pintar com os pés, tudo é conhecimento, o tudo é o nada e o nada é pleno de tudo. Ou seja, não se aprende a ponta dum corno porque dá trabalho e o ser humano não é para isso porque é a criança de ouro do universo e lailailailai! Porém, eles foram os últimos que aprenderam qualquer coisinha - num país sufucado, claro, mas aprenderam! Entre os do poder institucional e os do poder da cultura insuportavelmente performativa de curso superior de largar fogo pela boca com subsídio da câmara para intervenção artística de passeio público, há a enorme mancha dos que lá não chegaram porque, afinal, não eram todos crianças de ouro do universo e acham que a vida lhes deve muito e não paga: porque os professores deles davam aulas de um estrado, eles espatifaram o estrado para que o filho - que não sabe conjugar o verbo haver e está a fazer um doutoramento à custa da poupança reforma que foi ao ar, e dá aulas de português quando consegue ser colocado - não fosse subalternizado pelo ensino de orelhas de burro ao canto, mas esta gente é uma corja ingrata e responsabilidades na construção do mundo corja, iguais a zero. São todos inocentes porque são crianças de ouro do universo. Foram enganados: o amor era livre, ninguém era de ninguém, todavia casaram; traem sem culpa, porque a culpa mata, ou contam a culpa porque ela pesa - não, nunca é por serem uns egoístas de merda; aceitam ser traídos, não pela igualdade de géneros no direito à traição, mas porque para exigir é preciso dar e isso não é coisa onanista de criança do universo. Porém, foram enganados: a propriedade não existia, embora a adquirissem; os filhos eram da comunidade, e são deles que os aguentam, dependentes e infantilizados, em casa até aos 35 pos doc; o mundo era um kibutz e está em vias de derreter. Porque isto é pouco, estes reis do eu, agora ainda vêm com esta politreta do amor. Minha querida poliamorosa, eu explico-lhe devagrinho: sim, a atracção sexual por terceiros existe mesmo quando se ama alguém profundamente. Mas ó!, pasmem-se as inocentes e nada egoístas crianças de ouro fazedoras de eras aquarianas, essa tensão não tem que ser escoada com esses terceiros! Pode, ó reino de perversidade adulta entupida de buñuels, bergmans, prousts, clássicos a peso para ser mais barato, conrads, faulkners, senas, roths, e beijos assim de antonioni em 1960 agora, ser trazida para a relação sexual de dois, fechada a terceiros, e aberta ao que cada um dos dois traz, mais ou menos terciaria e explicitamente para ela. E quem diz sexo, diz o resto, diz o nada pleno de tudo! Porque, minha querida, poliamor é amor da treta, não exige do corpo o que ele quer ser de dar e ter, não exige do pensamento o que ele pode sentir, nem ao sentimento o que ele pode pensar. Preguiça... é no sofá!

Ps: Para o caso da minha, como direi...tolerância?, desencorajar o Amor por Vir de vir, sempre adianto que raramente durmo bem, ou seja, também sou assim. Mas pouco.

3 de Julho de 2009

PARA QUE SERVE UM TELEMÓVEL?

Para isto!

2 de Julho de 2009

A ALEGRIA DOS NÚMEROS

Dizer, acrescentam-me, das acções sobre a vida, 1, de alguém em vida, 2, desse alguém. Uma homónima, mas em Rita, tem um Walter-Ego com espírito. Gostei dele todo! Aqui actchim 3, aqui santini 4. 5, em segunda mão, mas em tão bom estado como se fora em primeira.

1 de Julho de 2009

HÁ GENTE MUITO INFELIZ...

Um amor por vir é uma desgraça! Não nos leva ao teatro, nem para jantarinhos de prova um bocadinho, meu bem, enquanto que, com um ar sonso sonsinho, eu?, nos prende por debaixo da mesa, com as pernas dele, os tornozelos enfaixados nestes sapatinhos de abismo que nos fazem parecer figurantes no Ben Hur - quem foi o génio da estilística que se lembrou deste pavor?! O Manuel Rodrigues Lapa é que não foi! - Muito menos nos diz, deixa estar que eu levo, ou queres que lhe dê um par de estalos?, só para nos dar a alegria de ter um cavaleiro andante à la carte contra a vilanagem dos grelhadores e outros crimes. Nem nos puxa o fecho para cima - nem para baixo! Muito menos nos diz que o raio da lixa para madeira parece que é de unhas! Em compensação, isto de ter um amor por vir, deixa-nos livres para ir jantarinhar onde e com quem nos dá na bolha, antes ou depois do teatro ou, se não apetecer, ficar a comer meloa à frente da televisão. Ou, então, para dizer a uma porta toda estropiada, vai-te lixar!, e ficar a ouvir Rodrigo Leão com os pezinhos ao léu, os saltos que andem sozinhos, desmaquilhadas e despenteadas a gosto até saber cantar desafinado em russo fonético ou lá o que é.

44 CORRESPONDÊNCIA

Mr. Right - who ever you are, where ever you are, and I`m not saying it`s you! - don`t get me wrong, but...

por favor, não venha, descobri que sou uma áspide e a culpa é toda sua! Porquê? Ainda tem o desplante de perguntar!... Faço-lhe uma lista!

1. Marcaram reunião de condomínio e eu terei de ir na sua ausência. Acha bem?
2. As lâmpadas por baixo do armário da cozinha, as que iluminam a bancada, fundiram-se e na loja não soube quais trazer. E daquelas que duram oito anos, para espalhar pelos candeeiros da casa e deslargar as softone, também não soube escolher porque há uma variedade maluca mas de utilização não especificada na embalagem. Queria ser ecológica e não consegui!
3. Não sabia de qual Bondex é que a porta da entrada precisava. Há montes deles, tantos como tons de uma cor de baton! Olhe, trouxe um ao calhas... soou-me bem, diz o próprio que é muy resistente a los rigores climáticos. Pincéis ao calhas, também. Se ficar tudo mal, mordo-lhe!
4. Queria comprar uma máquina de lixar, eram pesadíssimas e não consegui saber se seria boa ou má compra. Não comprei. Comprei lixa em folhas que também tem números como o baton... trouxe uma folha de cada número.
5. Porque isto é pouco, quando chego a casa verifico que um louco está no primeiro andar em tronco nu - nada contra isto - a queimar todo o carvão do mundo para assar meia dúzia de sardinhas. E o fumo a subir... Foi aqui que se me deu a alteração zoomórfica! Já áspide digo-lhe: se ainda não descobriu que os grelhadores têm tampa e que tem vizinhos, depois mando-lhe a conta da limpeza dos cortinados e dos estofos! Ou acha que tenho de ficar fechada em casa sem abrir as janelas?!
6. Ora, não suporto áspides, nem peixeiradas mesmo que em versão sardinhadas, e ainda por cima detesto irritar-me, a menos que esteja possuída pelo espírito do demo: fico nervosa.
7. É para que saiba!

30 de Junho de 2009

PINA BAUSCH - A SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA

UM GÉNIO DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO, É O QUE EU SOU...

Após uma manhã inteira de sobrinhação, tive uma epifania, embora só acessível a quem tem idade para perceber discos em vinil: tomar conta de um bebé de um ano que anda - como quase todos os desta idade - é, deve ser, mais coisa menos coisa, como ser pastor, mas de uma só ovelha e em setenta e oito rotações.

ps: obrigada, só tive discos de 33, os LPs, e de 45, os singles. Errei nas outras.

56 AS MULHERES SÃO O QUE SÃO

As mulheres gostam de se portar bem, de satisfazer a obediência, nas circunstâncias em que os homens gostam de se portar mal e satisfazem a transgressão. Ambos necessitam ser amados. Profissional e socialmente as diferenças diluem-se já que ambos precisam de ser respeitados e aprovados pelos seus pares. No entanto, uma vez fechada a porta do quarto, as mulheres somam ao gosto de se portar bem, o gosto de se portar mal, e para obedecer a isto, transgridem. E isso é bom. O sexo entre duas pessoas que se amam, não é melhor porque se amam, é melhor porque o amor lhes dá liberdade para conhecer gerundivamente. Na cama, a segurança que a rede de ternura provê à ousadia, é tão importante quanto o sorriso que a intimidade permite à malícia, ou à tontice. Não porque o sexo seja divertimento, não é - para entretenimento é melhor ir ao cinema - mesmo quando é lúdico e brinca com humor à diversidade ou alteridade . Mas porque dança sobre a linha do interdito, tem encapsulada a violência que se escoa na força com que agarra, e exposta a linha de vulnerabilidade que delicadamente a controla: o equilíbrio do desejo. Por isso, quando amor, um vínculo tão bem respirado de dois, tão permeáveis os dois, um ao outro. Se é verdade que todo o prazer é a repetição, também é verdade que é a reinvenção do conhecido que redefine as margens de ser e sentir. Não para ser outro. Para ser mais completamente si mesmo.

29 de Junho de 2009

01 AMO-TE... INCONDICIONALMENTE!

Todas as pessoas que eu conheço têm, se apaixonadas, sentimentos muito elevados... para aí da altura de um arranha céus. Ora isso é mau - e custa-me! - porque me faz sentir um rés do chão do amor. Não gosto, não quero ficar à sombra de ninguém, mas não tenho suplesse que me faça arrancar as penas às asas dos anjos, fazer o quê?! As pessoas dizem, amo-te incondicionalmente. É lindo, reconheço. Se o seu rico rapaz lhe põe os cabides com as colegas de trabalho, ama-o incondicionalmente? Se a humilha em público ou em privado, ama incondicional e mente? Que infidelidade é que é aceitável? Duas amantes, três affaires e dúzia e meia de night stands? Logo se vê? Então, depende do quê? Das circunstâncias? Da profundidade do golpe? De quem sabe? Do com quem foi? Do como foi? Do depois? Se ama(?) incondicionalmente, é rapariga para lhe dizer, porque verdadeiramente o sente: querido, sinto-me tão gratificada com o teu prazer com outras mulheres... não há monolitismo amoroso, sou informada, e delicia-me saber que tu o exploras diversificando as relações e a tua vivência da tua sexualidade... os teus afectos fazem-me sentir mais feliz e completa. Já viu, portanto, que é condicional - claro que uma mulher que falasse em afectos e vivências, quando se pode falar de amor e de vida, não seria boa da cabeça. Eu acho que o amor deve ser o mais condicional possível, aprioristicamente condicional! Condicional em tudo o que é importante, mesmo para que o nosso amor saiba que gostamos dele em condições, isto é, que o nosso amor pelo nosso amor presta e o dele por nós, também: ninguém, só os maluquedos, desbarata o que para si tem valor único. Neste caso particular, uma clausulazinha inspirada na oralidade serve perfeitamente a quem ama tipo rés do chão: juro que se pensares em trair-me com uma ordinária qualquer, te deixo acto contínuo e vais desejar que o vingador de Inês de Castro te venha arrancar o coração! Ah, e vais querer dar-lhe o fígado de bónus, tá bebé? Amor só presta se for condicional... maluquedos!

27 de Junho de 2009

26 QUALIDADES QUE AMAMOS NOS RAPAZES

Esta muito impressiva qualidade, inspiradora e exequível: uma competência de bom mecânico ao olhar para vida. E que me é tão fácil de entender - qual reproduzir, qual o quê?! - quanto seria para um rapaz entender a primeiríssima necessidade que tenho de pintar as unhas dos meus lindos pezinhos. Seja como for, é por estas, e por outras tão boas quanto esta, qualidades tão necessárias porém tão diferentes das nossas tão boas qualidades, que só um rapaz por outro - pois, pois não, gostar de nós não chega, ó! - é que nos deixa assim. E não, as mulheres não amam um rapaz que não as impressione até à medula, isto é, a quem não admiram. Sintam-se vingados os restantes já que quando amamos e nos apaixonamos, ensaiamos cigarros ao espelho e outras femmes fatalidades de tossir e trazer por casa. E sim, também é por figuras dessas, e por outras como essas, que só se ama uma ou duas vezes na vida. Olé!

26 de Junho de 2009

O RAIO! DO AMOR FELIZ...

Um amor feliz é uma coisa terrível. Mas há outro amor?, pergunta você que é uma criatura atenta e que não deixa passar uma vírgula - a despropósito, pode corrigir as vírgulas também, eu gosto. Não, claro que não! Essas melotretas do inferno em que, ou se morre de desgosto, ou se mata de ódio, ou se é infeliz para sempre, são da natureza que o próprio nome delas denuncia: desgosto, ódio ou infelicidade. Nenhum deles substantivos, pode ir confirmar com o tio Cândido de Figueiredo, é sinónimo de amor feliz e terrível. E toda a gente sabe que o amor só é amor se vier com a simetria felicidade-terror. São precisos sempre dois apaixonados um pelo outro, antropófagos de se comer um ao outro de beijos, de se querer comer um ao outro de beijos, de pensar em comer-se de beijos, e anda cá que és minha e anda cá que és meu, que stress a falta de títulos de propriedade humana!, cheios até aos olhos e transbordantes de para sempre e nunca mais, e tudo de ti e tudo contigo, mais a vergonha, que lixe!, de todos peganhentos, golinhos enjoativos de cocktail à hora certa, a toda a hora!, de minha querida, querido amor, dizia eu, são precisos apaixonados destes, dois, um pelo outro, muito, para ser amor. A felicidade é esta coisa terrível de se descobrir, afinal, batidas cardíacas siamesas, enquanto cada um malvado coração do outro anda arrumado no seu individual corpinho por onde quer e deve em vez de, ó mistério da ciência!, se ter quatro aurículas e quatro ventrículos todos colados num pavor de Frankenstein e só uma aorta para impedir separações. Ninguém no seu juízo perfeito quer um amor para ser infeliz para sempre, ou infeliz durante um bocadinho, ou mesmo só por agora. Toda essa infelicidade está disponível num monte de sítios diferentes e gratuitamente. Já a felicidade do amor terrível é mais arisca. Para além da questão científica dos corações não virem por junto e juntos, é preciso, em primeiríssimo lugar, que aconteça uma mesma mitológica, mas muito concreta, coisa em três versões. Logo três! Sorte, Fortuna e Fado. Ora isto provoca um abalo de agulhas no Instituto Não Sei das Quantas, aquele que às vezes aparece na televisão, que marca pontos na Escala de Richter, estala Fahrenheits e esfrangalha os nervos a uma pessoa enquanto não se sabe se os danos são recíprocos na coincidência sismológica e calorífica da cidade geminada! Ufa, que Sorte - a tal! - são! Seria, pensa um distraído, a felicidade, mas não!... É a Fortuna: no meio da desordem de mundo ao contrário, só se pensa, olha, ganhei o euromilhões dos beijinhos! Neste exacto momento, entra o sacana do Fado: ai, ai, se se tem pode deixar de se ter, se se é tão feliz pode-se deixar de ser, agora o que é que se faz? Ora eu, ao contrário da Júlia Pinheiro, sei tudo sobre o amor. Faz-se o quê? Nada nadinha! Só os malucos é que medem forças com as forças sobrenaturais, mais ou menos divinas. Depois é preciso que aconteça o resto. Que obviamente também é mito-concreto, mas felizmente numa só versão sincopada e menos aleatória. Qual resto? Ora adeus, os doze trabalhos de Hércules, ou se preferir os quatro de Psique. Pronto os dezasseis trabalhos e não se fala mais nisso! É que por fora temos que continuar crescidos, responsáveis e assins, para trazer a felicidade-terror para onde ela não cabe, que é o único sítio onde ela deve estar: dentro de casa.

MICHAEL JACKSON

Há muitos anos, numa noite quente já das férias do Verão, eu acordada fora de horas, fui interromper o meu avô para lhe perguntar o significado de uma palavra do livro que estava a ler, ele não me respondeu e disse-me, seco, vá chamar a mãe, sem mais. Não estava habituada ao tom, estaquei. Vai já querida, o Elvis Presley morreu. Fui a correr. Hoje também estaquei, o meu Elvis Presley, e eu não sabia que o tinha, morreu.

25 de Junho de 2009

55 AS MULHERES SÃO O QUE SÃO

As mulheres, mesmo as mais pacientes, por vezes, ficam impertinentes. Tudo incomoda como se fosse uma estranheza perturbadora da ordem do mundo. É o ar condicionado que faz um ruído enervante - o de sempre. São os latidos do cão quando o carteiro toca à campainha - todos os dias os mesmos. Os cinco minutos na fila para abastecer o carro de gasolina e toda e qualquer coisa que acontece todos os dias a inventar uma nova forma de ser percebida quando acontece como sempre aconteceu. No momento gota de água, encolhe-se os ombros e diz-se para não se gritar, não quero saber disto para nada!, não preciso disto para nada!, sai-se da fila, manda-se calar o cão, desliga-se o ar condicionado! Porque queremos saber daquilo, o que quer que aquilo seja - decerto não é ruído ar condicionado, nem latido de cão, nem espera para abastecer - para tudo. Porque aquele aquilo nos faz tanta falta que não conseguimos deixar de o ver. E isso é muito.

24 de Junho de 2009

LEMNISCATA

“O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs que demonstram talento, seja nas artes, nas letras, nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área e que, com isso, enriquecem a blogosfera e a vida dos seus leitores.

Sobre o significado de LEMNISCATA:
LEMNISCATA: “curva geométrica com a forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos é constante.” Lemniscato: ornado de fitas Do grego Lemniskos, do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas de louro destinadas aos vencedores (In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora) Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado, em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior nem exterior, tal como no anel de Möbius, que se percorre infinitamente.
Texto da editora de “Pérola da cultura”

Obrigada ao Samuel de Paiva Pires.

23 de Junho de 2009

O EFEITO DAS PALAVRAS

Todas as pessoas deviam ter uma prima Nair. Eu também. Aliás, nem sei se todas as mulheres não deveriam ter uma nota, pelo menos uma nota, de Nair, como se tem, sem se saber, a recordação de um aroma: bem entranhada na memória mais primitiva, indetectável no rasto e assim imprevisível no efeito de si mesma. Poderia ser, para umas, o olhar de Nair, a cabeça ligeiramente inclinada para baixo, o meio sorriso a levantar os olhos para cima. Para outras, o cruzar das pernas lateralmente estendidas, uma sobre a outra, deitadas, completamente juntas. Ou a mão, aquela mão que o braço às vezes esquece, brevemente suspensa. O arco móvel das sobrancelhas. Sim, uma prima Nair é um bem necessário. Esta minha prima, se eu a tivesse, gostava-a. Desde os gestos à volta ondulante, porém pausada, que a anca define antes distribuir o peso do corpo, três quartos assentes sobre a perna esquerda, atrás, um quarto à frente sobre a perna direita, quando procura uma posição confortável em pé, parada, gostava-a. Sempre bem enraizada, sempre quase solta, sempre de preto, uma coisa quase gato um bocadinho mais pesado do que o peso ideal e que só as mulheres muito bem amadas pelos maridos, e eternas viúvas depois, têm e que se descobre por junto com o decote com vista sobre o recato. Ou nos pequeninos biscoitos amanteigados que fazem, servem e comem - a massa trabalhada até que muito lisa, a escapar-se por entre os dedos quentes, fina, engordurados, contra a pedra fria, a temperatura exacta do forno, os cabelos sobre a nuca e sobre testa, húmidos na raiz, a blusa colada à pele numa linha vertical ao meio das costas, enquanto sobre o lume, o cheiro do tomate abre caminho para fora da cozinha demasiado aquecida - como se fora mordiscados, o mesmo com o chá, mordiscado, pequeninos goles até passar de morno a quase frio, permanente chá na chávena, o doce de tomate brilhante ao lado das torradas. Tudo eterno como quando se tem a certeza que tudo é para nós, outra coisa de quase gato este egoísmo perfeito que só as mulheres muito bem amadas, e eternas viúvas depois, têm: o egoísmo da carne. Isto, claro, é apenas outra maneira de dizer a satisfação do prazer. Esta minha prima Nair, viúva de um engenheiro de fábrica, engenheiro mecânico, os cabelos enrolados sempre a roçar a curva do ombro, bem amada, o arredondado das unhas rosadas, curtas debaixo do verniz transparente, chamava sempre senhor engenheiro ao marido, as unhas medidas nos dedos rápidos nas teclas da máquina de escrever e estenografias de serão, quando na fábrica ambos, porque dizia que lá não era mais que uma secretária dele.

22 de Junho de 2009

54 AS MULHERES SÃO O QUE SÃO

As mulheres têm lugares de penumbra. Sejam mais ou menos risonhas, têm lugares de penumbra. Isso não é bom, nem mau, é apenas uma morada de sombra onde intermitentemente se habita enquanto não se sabe, pode, fiar o coração até ao novelo, pensá-lo até ao tear. Nessas alturas a acção do homem é determinante. Não porque se substitua a ela no seu insubstituível e intransmissível labor. Porém, de tanto e tão naturalmente separarem os elementos nos seus constituintes, tanto e quanto as mulheres os juntam, a visão de campo de um homem é larga e a percepção, ajustada, a escuta é activa, organizadora e assim a roca delas roda sem se fazer ver e o fio cresce no fuso. O coração bate livre de impurezas. Às vezes é esta atenção amorosa que é precisa.

21 de Junho de 2009

É DOMINGO, ESTÁ CALOR...

... já sei! Let`s dance.

43 CORRESPONDÊNCIA

Mr. Right - who ever you are, where ever you are, and I`m not saying it`s you! - don`t get me wrong, but...

antes que lhe dê para aparecer, sempre quero dizer-lhe toda a complexa e difícil verdade sobre o amor. Tome nota que eu sou um tudo nadinha normativa. O amor, amor por vir, não é coisa de filme de adolescentes românticos, liceais e americanos, a menos que se seja actor, adolescente, liceal e americano. Para os restantes mortais com variadas profissões, mais ou menos cínicos, de qualquer idade e nacionalidade, posso assegurar-lhe que é exactamente isto - coisa completamente distinta daquela. Olé! Não ficou com dúvidas sobre a minha maturidade emocional e assins, ou ficou? É que não quero que venha ao engano.

A despropósito: Feliz Verão!

20 de Junho de 2009

JÁ A MINHA IDEIA DE CÉU...

dá-me vontade de ir para o inferno, mesmo contra a vontade de Bento XVI que veio dizer que era tudo mentira e lalailai, que não existia e não sei quê. Porque o céu deve ser um hotel de luxo, onde ao pequeno almoço vale tudo, nada engorda, o café é perfeito e o sumo de laranja sempre doce, o sacana do Tennessee Williams está à mesa com o Eugene O`Neill, e enquanto o Coppola vai buscar salsichas, o Philip Roth toma notas, o Hölderlin anda, gentil, amalucado pelos corredores e o Hermann Hesse serve-se de chá medido em letra miúda desconfiando do Herberto ácido Helder. E isto tudo antes da nove da manhã!

ps: obrigada pelas correcções.

A MINHA IDEIA DE PURGATÓRIO

Na RTP 2, uma das minhas embirrações de estimação canta enjoada agarradinha à viola. Já sei, já sei, o mundo faz vénias a Madeleine Peyroux e ela faz-me faz-me ânsias a mim! Pior, pior só se lá pelo palco estivesse o triunvirato celeste completo: esta Madeleine, a outra que cantava o sorry, is all that you can say, num tonzinho que fazia vontade de lhe dizer, ó Tracy Chapman, filha!, nem Deus te aturava! Sem garra, nem fibra... em vez de dar um par de estalos de desprezo ao idiota, só lamúrias, que nojo!, e a outra, aquela uma que tinha testa até ao meio da cabeça e a mania que era amazona... Sade Adu! Quem me dera o Scooby Doo...

91 QUERIDO DIÁRIO

É reconfortante, à beira do Solstício, saber da terra que roda o mesmo curso de sempre, ainda que pense que, no canto errado do universo, talvez jamais se tenha movido e os dinossauros sejam só bonecos daWarners. Porque daqui, do canto certo, doutro templo à beira mar, saúdo Empédocles quando, entre as mãos, o sal da espuma olhado é caminho aberto aos passos da luz - saúdo em Empédocles não o amor, que ele não soube sem ódio, mas o voluntarioso desejo de amar os mistérios que cavam a terra para encontrar o céu. Teus passos. Onde estás?, agora que cai o pano sobre o Inverno, onde? Entre o osso e a carne nenhuma fáscia estende amortecimentos primaveris, outonais, nomes só para dizer transito, tu comigo, nós, trânsito entre o que apodrece e dá fruto: toda a vida é seminal. Hímera e Salamina, colunas de sustentação, atrasam a chegada de Cartago e a destruição adormece, como só se pode adormecer, abraçada ao inimigo no cerco de doce veneno onde, gota a gota se destila a ilusão do tempo e belas adormecidas, todos, não para dar ao sangue a certa hora de florir para, contudo, atrasar a chegada de Cartago. Então, daqui, das portas do mar, deste templo feito com a noite do teu nome, substituo a língua da mentiria pela língua da verdade, não pergunto o búzio constante de respostas conhecidas até à raiz do coração: digo, então, não onde estás?, antes, vem morrer comigo que o manto de Cartago, brilhante de estrelas marulhadas, precede as suas sandálias.

18 de Junho de 2009

90 QUERIDO DIÁRIO

A caminho do mini mercado do bairro, rente ao muro, um chão de flores, destas flores, para mim que as vi antes de lhes pisar as pétalas fingidas de papel crepe - quanto amam as pétalas, nas associações tácteis, mesmo visuais, o papel?, seda crepe lustro. Esmagamento de árvores, papel, até à raiz presa no extremo volátil do ramo, por isso o amam as pétalas asas. Esta é a ciência das flores, memória de nós: falso efémero, amarelo em queda desde o alto, cair é voar como os anjos, até reverberar no poço da alma onde a água ecoa na espessura das pedras fundas uma cegueira de luas. No passeio, minúsculas flores de papel crepe, e assim nenhum sangue, ah... seiva!, escorre breve e ácido, escurece humidade negra, cola suja debaixo do tapete de, afinal, flores voadas de anjos até ao calcário escurecido em cubos ácidos. A morte agarra-se à pele, mesmo pelas solas dos sapatos, a trepadeira de dedos agarra os tornozelos e vai subindo, florindo enrolada pelas pernas acima. É a ronda da morte que empurra o corpo contra a parede do Verão. É sempre o Verão que rompe os vidros até aos caixilhos quando bate nas janelas o estrondo das portadas. É sempre o estilhaço da luz, uma mão que afasta a Primavera e a outra o Outono. É sempre Verão na boca do amor que são sempre duas bocas juntas como as cerejas, duas, macieza de lábios é polpa de cereja mordida, é beijo. Há mais vida do que a vida que irrompe do chão da morte futura? Não há negação maior, onda de mar todo, maior, que afundar no desejo o corpo do amor, polpa de cerejas a carne apertada até à dor nos ossos, até à doçura salina do olhar numa cama de flores, até tirar do poço a nascente, para beber nela a frescura da origem do mundo, debaixo do sol do meio dia.

17 de Junho de 2009

09 SOFISTICAÇÃO E MISTÉRIO

Toda a gente sabe, não é segredo, que tenho uma vocação, irremediável segundo a minha avó, para sopeira: radionovela?, isso é um sopeiral! E às duas da manhã! O Retrato de Ricardina?!, mas quantas, quantas vezes é tenho de te dizer que isso não é Camilo Castelo Branco, que é sopeiral?!, Miguel Strogoff em banda desenhada?, parece mentira! Ó meu Deus!, a minha avó não compreendia que 5523 quilómetros de sofrimento, se fosse em verdade, seria demais para mim. Não pela distância, porém morreria de desgosto por causa da Nádia e, enquanto morresse, manteria sempre um olho de ciúme na Sangarra. Pois sim, querem lá ver que era santo... Adorava-o! Isto sem contar com, esta miúda, se lhe perguntam o que quer comer, é só feijão, massa e pão, de preferência os três juntos... sai em conta. Não é de estranhar que, um tudo nadinha mais tarde, o meu rico ex marido, de cada vez que me via a assistir a um reclame da Vileda, dissesse logo, ó que caraças que não param de inventar baldes e esfregonas, panos, já sei!, temos que ir ao Pingo Doce - só tirei a carta já no pré divórcio... E porquê a historieta da sopeira semi literata? Confesso, a minha linda cabeça assusta-me: porque tenho de fazer uma limpeza profunda a esta casa, apetecia-me bife tártaro e comi bife com ovo a cavalo, não fiz nem um quilómetro de bicicleta porque ela não tem luz, não vi o Michel, mas nádias e sangarras é aos montes e, ó raios!, não escrevo uma reles radionovela e o Camilo Castelo Branco que me mata de inveja escreveu 5523 romances! É isto, mais coisa, menos coisa...

16 de Junho de 2009

08 O EFEITO DAS PALAVRAS

A zona ficou sem rede. Ilha no mundo global. Paleolítico da comunicação. Claro que eu quero que a comunicação se lixe, o que me interessa é conversar, estar com mesmo não estando lá, mesmo que cada um no seu cá, porém, estando: esta querida amiga tem hoje um dia importante, como é que se abraça um bonne chance à distância sem sms? E a minha online news addiction? E se ao amor por vir lhe desse para chegar aqui e, após ler a message in a bottle, resolvesse responder, honey, i`m home? Ó drama! Seria. Não foi porque descobri logo o antídoto, o anti drama que, portanto, usarei assim que a ele lhe der para de facto dizer, honey i`m home. Azucrinar. Os pais não azucrinam os filhos, os filhos não azucrinam os pais, os amigos não se azucrinam porque azucrinar é um verbo feminino com dois substantivos dentro, açúcar e limão em partes desiguais e aleatórias, e transitivo porque oxidado quando não há paixão. Isto é, as mulheres azucrinam a paciência aos homens por quem se apaixonam - ao resto do mundo masculino não apetece azucrinar. Porquê? Porque é uma resposta provocatória, feliz, risonha e mazinha, à vulnerabilidade abissal de amar. E geradora de tensão. Ai fazes-me gostar tanto de ti?! Então, vais ver o que eu te faço... E o que se faz? Azucrina-se! Esse decote é muito fundo, sobe-se o decote, encolhe-se a saia. Minha querida, que tal um peixinho com equilibrados legumes? Belas vieiras cobertas de queijinhos em béchamel e pimenta preta, ou não são bichos aquáticos e a pimenta não é praticamente um legume? A um amoroso dar as mãos responde-se com um indecoroso pôr de mãos. A um beijo com sabor gostoso de pecado, com uma leve repreensão. Azucrinar... gosto.

15 de Junho de 2009

PODERIA ESTAR A ACONTECER CONSIGO OU COMIGO...

É uma cobardia que alguém com o claro objectivo de nos denegrir, diminuir, lesar, use o nosso nome para ofender a terceiros. O que não é perceptível é a razão que determina tal objectivo. Isto está a acontecer com a Sofia Loureiro dos Santos e por causa disso ela vai fechar o Defender o Quadrado.

ADORO TELEMÓVEIS DESCARTÁVEIS!

Tenho uma relação de amor ódio com a tecnologia: eu amo-a, ela odeia-me. Andei a rezar a este pc até o comprar, e nem por isso o bandido se digna a deixar de me destruir ficheiros, ou a deixar de os esconder, ou o que quer que seja que ele apronta apenas para me dar tratos de polé de fazer inveja às vergonhas do catolicismo. Há várias encarnações que uso telemóvel, só para os perder, partir - sim, como se fossem pratos! - avariar desde a mudez à surdez, passando pela cegueira, ou mesmo para os matar por afogamento. Claro que, toda a gente sabe, os telemóveis são vingadores post mortem: desesperam-me por me levarem para o além as fotografias, tão lindas, e vídeos do cão - sem comentários ao facto de eu não ter máquina para essas coisas, please, comigo é mais vingadores ou retina. E porque é que estas injustiças do mundo me acontecem? Não sei, mas estou fortemente desconfiada que é má vontade tecnológica. Isto tudo porquê? Porque matei, sem querer, outro telemóvel. Foi o segundo este ano para compensar o bom comportamento de 2008 - detesto Nokias, ó bichezas frágeis!, fragilelettes detestáveis... Assim tenho andado com um ressuscitado, o único sobrevivente num cemitério de quinhentos mil carregadores distintos e repetidos, que me enlouquece com piscadelas azuis. Há mais de duas semanas que aturo este tarado com complexos de Farol de Alexandria! Fui à TMN. Já tinha escolhido uma barateza gira em cor de rosa metalizado, não havia encarnado, quando o senhor que era um rapaz, quase uma criança, me diz que eu tenho pontos aos milhões. Não sabia que tinha. Que davam pontos. Achei muito bom, mereço ser bem pontuada, tudo 10 técnico e artístico como a Katarina Witt - os tais dos pontos são convertíveis em telemóveis, não em chamadas... o mundo não é perfeito, é pena. Pergunto ao senhor rapaz criança que tem ar de grande sabedoria técnica: qual é que eu levo? Para que é que o usa? Ora adeus... não uso para cozinhar! Escolheu-me um mini qualquer coisa que parece ser apenas um visor que funciona espetando-lhe um palito ou, se este em falta, com o próprio do lindo dedo da menina. Quando reparei o quanto custaria se tivesse de o pagar, fiz logo as contas em salários mínimos, fiquei chocada - estou habituada a fazê-las para não me deprimir/ para me chocar por não comprar os lindos sapatinhos, coisas, livros, filmes e cds que quero de cada vez que olho uma montra/ escaparate de perdição. É didático. O aparelho dos pontos não é completamente feio, faz lembrar a parte de cima dos intercomunicadores do Espaço 1999, mas em preto e prateado. Foleiro qb. Claro que tudo seria menos mau se conseguisse pôr o obtuso Assembled in China a funcionar. Pelo menos deixava de andar encadeada com o ressuscitado.

ps: hélas, laudes ao ressuscitado que tem photoshop integrado, o cão fica cachorro e eu não passo dos 18. Viva a Samsung!
ps 2: quando tiver dinheiro e vontade para um carro novo, compro a Eagle 1 equipada com o commander John Koenig...
ps 3: merci, gracias, thank you, obrigada pelas correcções. Desta vez exagerei, erros aos molhos como o alecrim...

89 QUERIDO DIÁRIO

Todas as pessoas crescidas que eu conheço são crescidas. Sabem muito de coisas. Quando se sentam nas cadeiras para falar, os pés tocam sempre no chão, não brincam com as mãos de não terem onde enfiá-las nas dúvidas, respiram bem, dormem bem, fazem coisas crescidas de hierarquias óbvias de eu primeiro, nós depois, dizem profundidades outras, escritas em livros inteligentes, reproduzidas e reproduzidas e reproduzidas nos jornais: canções de roda de quando eu mais que pequena, muito pequena, todos cantavam o mesmo enquanto um no meio, um sozinho no meio, a desejar outro no meio, porque cantava sozinho. Uma voz pequenina quase ninguém ouve. Mais um outro. E mais. E depois, só depois, eles de fora a desejarem-se meio, até que for fim, todos apertadinhos dentro, quando dois fora, quando fora um, roda impossível. Sabem de muitas coisas. É lento o tempo do um, central um, ou excêntrico um, sempre solitário um, inevitável um todos os filhos de Thoreau.

11 de Junho de 2009

QUERO O LIVRO!

Estou farta! farta! farta! no limite da fartura! Detesto a Almedina!, apetece-me atirar as estantes para o chão, dar pontapés nas cadeiras, atirar uma pedra ao vidro, parti-la toda como a um saloon numa briga de western! E depois da fúria me passar chorar da desolação. Quero o meu livro! Entreguem-me o livro! Estou farta! Já ODEIO a merda d`Os Passos em volta! Odeio-te HH! Se me pusesses o livro nas mãos neste instante, RASGAVA-O!

42 CORRESPONDÊNCIA

Caro Moita Flores,

Perdoará o quase tutear mas, ou porque escreve, ou porque criminologa, ou porque opina e politica e agriculta, enfim, porque é quase tão omnipresente quanto o ilegível Gonçalo Tavares - terão clones?-, parece que o conheço. Não conheço. Isso não me impede, aliás, obriga-me, a dizer-lhe isto à laia de aviso como entre os bons vizinhos que não somos: se por algum motivo der por falta de um colar, há quem lhe chame Ordem de Cristo - eu não, Cristo não dá ordens, não tem criadagem, só fiéis, (ai! as sensibilidadezinhas...) - fui eu que lho roubei. Acho que isso de colares com fitinhas de seda riscadas fica melhor às meninas... E a mim e à minha modéstia, ainda mais. Depois pode descobrir o meu crime, escrever um livro, adaptar para série, explicar, não o seu entendimento do meu crime, mas, pasme-se!, as minhas motivações criminosas no telejornal, porque isto é pouco, convidar-me a votar em si para me redimir e, ouvindo o meu não, dar-me uma seca coerciva sobre coisas daquelas de produção agro-inteligente ou o que raio é. Que canseira!, preciso de me ir desmultiplicar...

ps: Já a Filomena que é bonita, estava bonita - eu gosto muito de amarelo. E acho que é uma actriz subaproveitada e que devia fazer cinema daquele à João Canijo. Sabe o quanto é que eu gosto do cinema do João Canijo? Muito. Olhe, ofereça o colar à sua menina que já não lho roubo.

10 de Junho de 2009

53 AS MULHERES SÃO O QUE SÃO

As mulheres, as nascidas e as por nascer sob o signo de Capricórnio, Virgem, Peixes ou qualquer outra constelação onde o sol se passeie no exacto instante de vir à luz, têm sempre o coração em Gémeos. De um homem querem a declaração mais que amorosa do amor deles por elas - incredível! de tão amorosa - para a crer e duvidar: "caramels, bonbons et chocolats". Assim servem às duas necessidades profundas que têm. Eles? Não é preciso saber o que quer que seja de cartas cardio-astrológicas para perceber que os homens se perguntam porque é que ela não me ama?, e fazem para ser amados por uma mulher, enquanto as mulheres se perguntam, mas porque é que ele me ama?, e fazem porque amam um homem. Sim, eu sei, do para e do porque já falei anteriormente.

HOJE É ...

1 Dia de Mátria Nossa, cá e onde quer que a amem.

2 Dia de um senhor que diz que não escrevia mal e por isso fez bem em ter nascido quando nasceu ou estava na bloga e fixar ecrãs só com um olho cansa os pixels da retina!

3 Dia do 1º Aniversário d`O AFILHADO do Tiago Moreira Ramalho e na Mátria, a que é só Minha, gosta-se deles e vamos à festa cantar-lhes assim, muito bem desafinado:
Parabéns a vocês
nesta lailailai,
muitas felicidades
lailailailai,
Hoje é dia de festa
lailailai
para os dois meninos
uma salva de palmas!
Viva!

9 de Junho de 2009

08 SOFISTICAÇÃO E MISTÉRIO

Eu faço, não é segredo, um pleno de alergias: por inalação, por contacto, alimentares, enfim, como em tudo... se é para fazer, antes pecar por excesso que por falta. Porém, a questão cebola atinge rubros lacrimejantes nunca vistos - dirá você que é delicado, tu e o resto do mundo, ó filha! Não! Como eu só eu. Todavia, de brilhante que sou, e porque um refogadozinho é coisa fundamental, - não sou de comer cebola crua nem na salada! -, resolvi a questão com extremo bom gosto: corto ou pico a malvada com óculos de piscina postos: lentes cor de laranja e elástico amarelo. Olé!

ps: é por estas e por outras como estas, e até piores!, que eu não gosto de visitas surpresa, nem adiantadas.

8 de Junho de 2009

26 THE LOST ART OF CONVERSATION - as regras que Murasaki Shikibu não escreveu para as fotografias de Nobuyoshi Araki

A conversa nunca é o absoluto de tristeza, a explosão só de alegria. A vida que a conversa devolve à vida, em cada instante em que todo o passado se faz presente, é completa. A luz avança e recolhe-se do mesmo modo nos lugares do mundo que conheceu com dor, ou com prazer, com indiferença, com desprezo, com fervor ou êxtase. De sol e de sombra até à declinação noite, até à floração da aurora, todos os lugares onde a verdade se permite. A felicidade de estar vivo diante de outra vida é um sulco muito estreito, um fio de água doce muito limpa, um frio de frescura a correr, por isso na conversa tudo flui, até o obstáculo ao curso líquido da conversa é liquescente.

7 de Junho de 2009

41 CORRESPONDÊNCIA

Mr. Right - who ever you are, where ever you are, and I`m not saying it`s you! - don`t get me wrong, but...

ainda bem que não está aqui, se estivesse, gritava-lhe, como é que se atreveu a chegar só agora?! Estou a engonhar, a arrastar, a adiar! Detesto isso! Detesto! Tudo por culpa de quem? Sua, claro, mas já lá iremos... E do Herberto Helder por causa do maluquedo limitado dos exemplares que faz publicar... há homens que só à força de espelho: estalada mental, mentais abraços para ver se gostam. Desde quarta feira que espero Os passos em volta, estou tão farta de esperar os passos que até já os ouço, olho e nada em volta, vou até à porta e nada também. Estragou-me o fim de semana. Porque isto é pouco, o resto da culpa que não é sua é toda do PSD, do PS e até do CDS! Eu que sei sempre em quem votar, não sei. Ora, não sei não saber, fico aflita como os miúdos que não estudaram para o teste, eu miúda pequena sempre estudei. Quero votar no amor do amor por vir. No seu. Acho bonito. Escrever o nome, fazer um quadradinho e cruzá-lo. Diz que é nulo. Não me parece. E posso? Agora a sua culpa: não posso, não sei como se chama... mande fotocópia do bilhete de identidade.

ps: vote em mim, tá?

88 QUERIDO DIÁRIO

Não sei ficar à deriva. Ser algas de mar, não sei na corrente ser, um monge taoista, folha no vento até onde ele quiser, folha de vento, não sei ser. Só levantar-me quando o despertador que comi quando era pequena toca sozinho todos os dias à mesma hora, não se ouve, eu desligo, ouço tudo mesmo a dormir. Depois fazer agenda até agenda de nada fazer agendada: dia de nada. Planeio a solidão para a encher. Isto de folha arrancada, não. Hoje, tão cedo, enganou-se o despertador, deitei-me muito tarde. É sempre assim nos dias em que as pessoas acordam para os milagres: nenhuma preguiça, os olhos abertos comandados pela cabeça atenta, o corpo, soldado obediente, vai à frente, coitado. Nada. Mas as casas são casas, são camas por fazer, cães por passear, máquinas de roupa, carregar embalagens de leite, o peso dos detergentes, nenhum anjo desce das asas para descarregar do carro os sacos cheios, o pó não se limpou e à nossa espera no sofá da sala nem os mortos que amamos, nem os vivos que amamos, nem ninguém. Sequer um mínimo poltergeist assomou à aparelhagem e a deixou a tocar sozinha uma música onde se lesse a divina presença, uma amorosa presença, estive aqui e amo-te. A voz de Deus não acalmou os ventos para beneficiar as bicicletas, a chuva não se submeteu às hierarquias celestes recorridas da terra, o som do mar não deixou de querer arrombar a porta, as gaivotas ganiam e ladravam, gargantas de cães, por dentro da lareira uma simulação de sofrimento e elas livres no ar alto a propagar falsa dor em voo até à sala. É sempre um retorno à barafunda de estrelas de Elytis a mão que não aperta a nossa só para nos recordar que ninguém vem, que tão pequenos e tão sós. A agenda salva-nos da espera de Deus.

6 de Junho de 2009

VAMOS REFLECTIR AQUILO DE AMANHÃ NO CINEMA HOJE?

Gosto demais desta música... vou-lhe fazer um post um destes dias - postal, vou chamar-lhes postais, escrever postais é bonito como fazer caber um amor completo e impetuoso na idade madura que é tão infantil! Se calhar é por causa do raio do filme que hei-de ver que gosto tanto dela música e do vídeo! O que vale é que já está em exibição no fim da linha. Vamos ao cinema? Chega de saudade, Brasil.

ps: já terei dito que tenho uma fraqueza por cinema brasileiro?... e que gosto de me repetir nos gostos e no verbo gostar?

87 QUERIDO DIÁRIO

É preciso olhar de olhos nos olhos sem medo de cegar e com impiedosa calma as mãos sobre o peito do amor à nossa frente, a pressão dos polegares até o esterno ser um osso concreto de dor natural, ponto ou porta onde o corpo se despe da carne e a caixa da respiração se devolve ao sopro do universo. Lá, entre o equilíbrio musical dos astros suspensos, depositada flutuação no pano de negro silêncio, também o coração, astro também suspenso, brilha escuro, brilhante escuro, a flutuação da luz dentro. Este corpo de pó é de pó estrelas.

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